FOGO

MEMÓRIAS. CALOR. LUZ. MERGULHO PROFUNDO. ESSÊNCIA. FUSÃO! INÍCIO DA TRANSFORMAÇÃO.

Assim, o Fogo, ao queimar, transforma as trevas em luz, a energia em calor e a matéria em cinzas. As cinzas que retornam ao chão, à Terra... se misturam aos componentes minerais presentes no solo para nutrir e possibilitar a vida! E então, sementes germinam, folhas (re)brotam e a vida renasce!

            Nasci e cresci no interior de SP, numa família de muitas mulheres, de mães fortes, acolhedoras e alegres. Sou a terceira filha, numa sequência de três meninas, onde todas herdaram além dos cabelos escuros, do riso fácil e da inevitável queda por chocolates, nomes com a letra M!

Isso era meio que “de praxe” na nossa família, onde tudo começou com a minha avó materna, Ela, a nossa Maria, que foi e sempre será minha melhor lembrança de infância, minha dose de saudade diária, meu colo protetor, meu escudo em forma de barra de saia, a força e exemplo que trago comigo, que marcou minha vida e de toda uma geração que foi amada e cuidada por ela... E assim como a canção eternizada na voz embalada do Milton “...quem traz na pele essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida...”, cá estou!

            Há um tempo venho observando crianças de várias idades, dentro e fora da escola, observando como elas se relacionam, percebendo como o ambiente e as pessoas do seu dia a dia tem grande influência sobre elas, que mesmo pequenas, já carregam consigo memórias muito importantes, memórias de construção para o ser humano... Isso é a chamada “Teia Educacional”, que o Ivan Ilich, pensador da desescolarização, tanto fala!

 

            Resgatando minhas memórias de infância, percebo que tive como núcleo de maior (e mais rico) aprendizado a minha casa e as pessoas com quem convivi. Claro que a escola teve um papel importante, mas sinceramente, tudo o que sou hoje, os valores que carrego comigo, minha essência, a forma como vejo o mundo e atuo nele, eu aprendi em casa!

 

            Nossa casa é um sobrado, construído pelas mãos do meu bisavô, embaixo moravam meus avós maternos e em cima nós (pai, mãe e irmãs). Cresci sob os cuidados amorosos de uma avó muito zelosa! A casa era sempre cheia de crianças, de brincadeiras, de comidinhas deliciosas, de música na vitrola, de balanço na rede, de muita briga de irmãos, mas também de muitos abraços... Ela sabia ser firme, sem ser permissiva, dar limites e ser carinhosa e acolhedora ao mesmo tempo... não devia ser fácil pra ela, pois carregava em si lembranças de uma infância difícil, criada no sítio, com muitos irmãos, trabalhou desde muito pequena, teve infância curta, sabe!? Ela me ensinou que ser amável e demonstrar empatia às pessoas faz de você alguém muito especial, me ensinou a arte de cozinhar com temperos, alma e amor, a importância de se alimentar bem e a gostar de um bom café preto, me mostrou que acreditar e ter fé em Deus te faz mais forte, me ensinou a cuidar do que se tem, a valorizar o que conquistamos com nosso suor, que ser uma pessoa organizada facilita sua vida, que um abraço apertado pode sim curar tudo... Aprendi que saudade tem nome, sobrenome e endereço, que é pra onde viajo toda noite, em silêncio, agradeço baixinho e espero por mais um daqueles abraços que curam...

 

            Entrei na escola cedo, não lembro ao certo com que idade, mas meus pés ainda não alcançavam o banco de cimento que hoje me parece tão baixo! Minha primeira escola era bem tradicional, minha família conhecia a diretora, as professoras e a maioria dos pais dos alunos, cidade pequena é assim! Eram poucas opções de escolas (as chamadas pré-escolas) na época…

 

            Ficava perto de casa, de construção simples, me lembro do uniforme vermelho de saia de pregas e camisa de botão, do grande tanque de areia, dos brinquedos estruturados, da casinha de boneca feita de madeira e de muito cimento no chão! Não havia plantas, gramado, árvores!!! Nossa!!! (...)

 

Acho que o que mais gostava naquela escola era de conversar com as pessoas, os adultos principalmente, minha mãe conta que nessa época eu era bem desinibida, falante e adorava puxar papo com as professoras e com quem mais me desse corda! Ninguém resistia a uma menininha com cara de sapeca, franjinha e um gracioso óculos rosa da Mônica com tampão grudado! rs

 

Por falar em mãe, a minha sempre trabalhou fora, sua independência e garra pra correr atrás de seus sonhos sempre me inspirou, ela é fisioterapeuta e atende principalmente crianças e bebês. Lembro-me inúmeras vezes de acompanhá-la no trabalho, desde muito pequena, seja no hospital, na sua clínica ou na APAE (nesses dois últimos ela atua até hoje, lindamente). Passava horas brincando nos aparelhos e brinquedos da sala enquanto observava a forma com que ela cuidava de outras crianças, seu toque delicado e preciso naqueles corpos tão pequenos, muitas vezes frágeis e disformes, a forma carinhosa como ela cantava aquelas mesmas músicas infantis que nos embalava, para que seus pequenos pacientes não tivessem medo ou pra espantar alguma dor. Confesso que na maioria das vezes eu que pedia para acompanhá-la ao trabalho, só para estar ali, pertinho dela... Hoje vejo que esse convívio foi tão rico pra minha construção, me fez ver que o ser humano tem tanta limitação, e não estou falando só de alguma deficiência física ou intelectual, todos nós temos nossas mais profundas limitações, mas “ser humano” é saber enxergá-las e tratá-las de uma forma natural, respeitosa, com olhos de criança que não julga, não faz diferença e nem tem preconceito, sabe?!  Somos, viemos e voltaremos ao mesmo local de origem! Fato!

 

Até hoje frequento seu trabalho, principalmente em algumas festinhas e comemorações da APAE e de vez em quando, encontro rostinhos conhecidos por lá, hoje um tanto crescidos, mas que dividiram comigo muitas histórias de criança e balanços do parque.

 

Dividir! Taí uma coisa que se aprende quando se tem irmãos! No meu caso a divisão era por três, e que coisa difícil é essa de convivência né?! Nem tudo são flores, há também muita briga sem motivo, por motivo besta, mas a alegria de dividir as melhores memórias em outros corações supera qualquer desavença! Eu era daquelas que pegava escondido as roupas das mais velhas (e levava bronca com razão), que fazia a irmã pagar mico no colégio, nas excursões... Típica caçula! Dominávamos a arte de inventar brincadeiras, tínhamos uma só nossa, éramos uma grande família! Fazíamos Ginástica Olímpica! Juntas ganhamos, perdemos (na maioria das vezes...rs) e soubemos dar valor ao espírito de equipe, a somente participar, estar junto! E sempre vibrar e torcer umas pelas outras! Em tudo na vida! Meu orgulho por elas é imenso!

 

Estar juntas sempre foi importante, em qualquer ocasião! Manter essa conexão, esse laço que criamos nos faz únicas e tão complementares… e é assim até hoje… ainda bem!

 

Ah... Mas eu também tinha meu lugar de natureza, meu refúgio, meu cantinho preferido no mundo. Era a chacrinha dos meus avós! Esperava ansiosamente chegar o final de semana para poder aproveitar as delícias daquele lugar. Não era uma chácara muito grande, mas era suficiente pra preencher de verde meus olhos de criança. Tinha gramado suficiente pra andar descalça, virar cambalhotas, deitar e ver o céu. Pé de acerola, manga, romã, jabuticaba, maçã verde azedinha, flores de vários tipos, galinha e até pato já moraram lá. Foi onde pude ver meus avós sendo jardineiros, com enxada na mão, zelando e cuidando do pedacinho de terra deles... A viver sem pressa, respirar com calma. Aprendi a amar a natureza, seus ciclos, seus mistérios, que é preciso paciência se você quiser ver aquela rosa desabrochar, e ela sempre terá espinhos, então a trate com carinho, respeito, cuidado... Aprendi a ser curiosa e atenta, a olhar bem onde eu piso, pois ninguém quer machucar um incrível tatu bolinha, quebrar uma casinha de caracol, esmagar uma minhoca, só olhos muito treinados enxergam além de seus pés... Lá eu me sentia livre e inteira... O balanço da rede era mais gostoso, as horas passavam mais devagar, a família se reunia pra jogar conversa fora, comemorar, fazer comida boa e juntar a criançada... Minha melhor e mais animada festa de aniversário foi lá, a meu pedido. Tinha uns 9 ou 10 anos. Pulamos corda até anoitecer, dançamos, corremos e brincamos até ficar com as bochechas vermelhas... “tempo Rei… Ah tempo Rei!”

 

Resgatando todas essas memórias, confesso que as lágrimas escorreram a ponto de molhar o teclado e pude mergulhar fundo nas lembranças de uma infância feliz, feita de coisas simples…

 

Pude enxergar a importância do vínculo familiar e fraternal na construção do meu ser. Perceber quais foram os meus lugares de aprender. Pontuar quais foram minhas referências educacionais. Refletir sobre o papel da educação dentro e fora de casa, antes mesmo de chegar (ou não) na escola.

 

E a escola teve sim um papel importante para mim. Me relacionei com pessoas fora do núcleo familiar, fiz amigos que foram e são muito importantes na minha vida, tive influências riquíssimas de bons professores, acesso a conhecimentos do mundo afora... mas quando penso no ser humano que sou hoje, não tenho dúvidas em dizer que foi resultado da força dos exemplos que tive em casa, dos cuidados sempre atentos e do amor incondicional da minha família.

 

 “... devemos priorizar uma educação que prepare as crianças e jovens para a vida em seu sentido mais amplo. E a vida em toda a sua essência significa educar as mãos e os corações, além de educar a cabeça.”

Rudolf Steiner

“DAS COISAS QUE EU NÃO APRENDI NA ESCOLA”

por Marina Franceschinelli

 

“...lembremos da substância da qual fomos feitas, e do lugar que é o nosso verdadeiro lar...”

Mulheres que correm com os lobos

Uma linda canção para inspirar nossa jornada!! "Vai sem direção, vai ser livre..."

Uma das linhas centrais dessa teia que queremos tecer com vcs é uma das grandes inspirações da Natureza: a conexão entre todas as coisas.

Educar sob esse olhar é se conectar com nós mesmos, com o outro, com a NatureZa, com a vida.

Evitar rótulos, assumir sentimentos, ter (auto)empatia.

Para a criança estar conectado é a essência de tudo. Não existe separação. Nascemos em fusão e vamos nos separando, inclusive de quem nós mesmos somos.

O choro do outro é meu choro, a alma da planta é parte da minha alma. O que vibra nessa ponta da teia é sentido em toda a sua dimensão!

Adoramos quando Gandy Piorsky diz que as crianças são cosmogônicas!

Quem fala sobre como essa conexão pode se estabelecer sob o olhar da Comunicação Não Violenta, de forma belíssima é Dominic Barter Nesse vídeo. Aproveitem!

A conexão entre todas as coisas.

...eles vieram para nós pelo amor

Vamos iniciar a transição para o próximo elemento. A música nos inspirará e dará dicas para descobrirmos qual será!